FenômenosTemporada: setembro a novembro

O espetáculo das luzes vivas: o fenômeno dos cupinzeiros bioluminescentes

Por Equipe SETA08 de outubro de 2026  ·  9 min de leitura

Uma noite em que as estrelas descem até o chão

O calor do dia ainda não foi embora. O ar está úmido, pesado, com cheiro de terra molhada depois da primeira chuva da primavera. Ao redor, só o canto dos grilos e o silêncio imenso do Cerrado.

Aí alguém apaga a lanterna.
E o campo se acende.

Centenas de pontos verdes surgem espalhados pela savana, como se um pedaço do céu tivesse caído e ficado preso nos cupinzeiros. Não piscam, não voam. Apenas brilham, firmes, numa luz fria e esverdeada que parece de outro planeta.

Você não está sonhando. Você está no Parque Nacional das Emas, em Goiás, diante de um dos fenômenos naturais mais raros do Brasil: os cupinzeiros luminosos. E o mais impressionante vem agora, quando a gente entende o que está por trás dessa luz.

Afinal, o que faz os cupinzeiros brilharem?

Quem vê pela primeira vez quase sempre pensa em vaga-lumes. Mas não são eles voando por ali.

A luz vem de larvas de um besouro chamado Pyrearinus termitilluminans, um parente dos famosos “tec-tecs”, aqueles besouros que dão um saltinho com estalo quando caem de costas. Essas larvas vivem escondidas em pequenos túneis cavados na parede externa dos cupinzeiros.

Ao anoitecer, cada larva coloca a parte da frente do corpo para fora do buraco e acende uma luz verde produzida pelo próprio organismo. É a chamada bioluminescência: uma reação química natural que gera luz sem gerar calor.

A parte que muda tudo

Esse brilho não é um enfeite. É uma armadilha de caça.

Insetos voadores são atraídos pela luz, chegam perto demais e viram jantar. O que para nós parece um espetáculo de contemplação é, para a larva, uma estratégia de sobrevivência refinada ao longo de milhares de anos.

Saber disso não diminui a magia. Só deixa tudo ainda mais fascinante.

Por que justo nos cupinzeiros?

Os grandes montes de terra que pontilham os campos do Parque das Emas são construídos por cupins da espécie Cornitermes cumulans. Por fora, parecem simples morrinhos. Por dentro, são verdadeiras fortalezas: firmes, protegidas do sol e dos predadores, com temperatura e umidade estáveis.

Para as larvas do besouro, é o endereço perfeito. A parede dura do cupinzeiro oferece abrigo, e a altura do monte, que pode passar de um metro acima do capim, funciona como um farol. Quanto mais alto o ponto de luz, mais longe ele é visto pelos insetos que voam sobre o campo à noite.

“Os cupins constroem. As larvas iluminam e caçam. E o Cerrado, por algumas noites do ano, vira uma constelação.”

Quando ver os cupinzeiros luminosos: a janela é curta

Esse não é um passeio para qualquer época do ano. Os cupinzeiros luminosos aparecem com força entre setembro e novembro, no início da primavera, logo depois das primeiras chuvas que encerram a seca no Cerrado. As melhores noites reúnem três condições:

Calor

Noites quentes, depois de um dia abafado.

Umidade

Chuva recente e ar úmido despertam as larvas e os insetos que elas caçam.

Escuridão

Noites sem lua ou com lua fraca deixam o brilho muito mais evidente.

Fora dessa janela, os cupinzeiros continuam lá, mas a luz praticamente desaparece. Por isso, quem sonha em ver esse espetáculo precisa se planejar com antecedência. As vagas para as saídas noturnas da temporada são limitadas e costumam acabar cedo.

Dica da Seta

Reserve sua data o quanto antes e prefira ficar ao menos duas noites na região. Assim, se uma noite vier fria ou seca, você ainda tem outra chance.

Onde ver: por que o Parque Nacional das Emas é quase único

O Parque Nacional das Emas fica no sudoeste de Goiás, perto da divisa com Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. São mais de 130 mil hectares de Cerrado protegido, reconhecidos pela UNESCO como Patrimônio Natural da Humanidade.

É hoje um dos últimos lugares do Brasil onde os cupinzeiros luminosos ainda acontecem com intensidade. Pesquisadores da UFSCar que acompanham esses besouros há décadas registraram uma queda drástica das populações nas áreas ao redor do parque. Do lado de fora da cerca, onde antes também havia campos iluminados, a luz foi se apagando.

Dentro do parque, o Cerrado aberto, a abundância de cupinzeiros e a escuridão de verdade ainda permitem que o fenômeno aconteça como há milhares de anos. Ver isso hoje é um privilégio que poucos lugares no mundo conseguem oferecer.

Um espetáculo que pode deixar de existir

Por trás de tanta beleza existe um alerta. Fora das áreas protegidas, os cupinzeiros luminosos estão sumindo por dois motivos principais.

01 · Expansão agrícola

Onde o Cerrado vira lavoura, os cupinzeiros são derrubados, e os agrotóxicos atingem tanto as larvas quanto os insetos de que elas se alimentam.

02 · Poluição luminosa

Luzes de fazendas, estradas e cidades competem com o brilho das larvas e desviam os insetos que seriam suas presas.

Uma luz que levou milhares de anos para evoluir não consegue disputar espaço com um poste.

Por isso, conhecer os cupinzeiros luminosos no Parque das Emas é muito mais do que fazer um passeio bonito. Cada visita conduzida com respeito mostra que a natureza preservada vale mais de pé do que derrubada. O turismo consciente gera renda para a região, valoriza o trabalho de quem protege o parque e ajuda a manter acesa uma luz que, em muitos lugares, já se apagou.

Como funciona o passeio na prática

A saída é ao entardecer, para chegar aos campos do parque antes de escurecer por completo. Assim você acompanha a transição do pôr do sol para a noite e vê as primeiras luzes surgindo uma a uma.

Por que precisa de condutor credenciado?

A visitação no Parque Nacional das Emas é controlada, e as saídas noturnas exigem acompanhamento autorizado. Além disso, o condutor conhece os pontos com mais cupinzeiros ativos, sabe ler as condições da noite e explica o que você está vendo, do comportamento das larvas à fauna que circula pelo Cerrado depois que o sol se põe.

O que levar

Lanterna com luz vermelha

Ou papel celofane vermelho sobre a lanterna comum. A luz branca ofusca o brilho das larvas e atrapalha a caça.

Manga longa e calça comprida

De preferência em tons neutros.

Calçado fechado

Bota ou tênis de trilha.

Repelente

Com o calor e a umidade, os insetos aparecem com força.

Água e um casaco leve

Caso a noite refresque.

Câmera com tripé

O brilho é fraco e pede longa exposição, sem flash.

Cuidados e etiqueta de observação

O segredo para ver os cupinzeiros luminosos no seu melhor é simples: interferir o mínimo possível. Algumas atitudes fazem toda a diferença.

Pontos de atenção durante a observação

  • Não toque nos cupinzeiros. As larvas são sensíveis à vibração e se recolhem para dentro do ninho. Um toque apaga o ponto de luz.
  • Nada de flash. Ele ofusca a cena, incomoda as larvas e estraga a experiência de todo o grupo.
  • Mantenha distância e siga sempre a orientação do condutor sobre onde pisar.
  • Use só a luz vermelha, e apenas quando for necessário para caminhar.
  • Fale baixo. O silêncio faz parte da experiência e respeita a fauna noturna.
  • Atenção ao chão. À noite, cobras, escorpiões e formigas também estão ativos no Cerrado. Calçado fechado e olhar atento são indispensáveis.
  • Não leve nada. Nem larvas, nem terra do cupinzeiro, nem lembranças do parque. O que é do Cerrado fica no Cerrado.
A temporada já começou

Viva uma noite que pouca gente no mundo já viu

Os cupinzeiros luminosos só acontecem algumas semanas por ano, em um dos últimos lugares onde ainda brilham com força. É o tipo de experiência que fica para sempre na memória e que ajuda a manter vivo um dos tesouros mais delicados do Cerrado. As vagas para as saídas noturnas são limitadas.

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Equipe SETASociedade Ecológica de Turismo Ambiental — associação de guias e condutores de Chapadão do Céu desde 2003.
Set — Nov

Temporada dos cupinzeiros luminosos

Saídas noturnas com condutor credenciado. Vagas limitadas por noite.

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